quinta-feira, 25 de março de 2010

A VELHA PONTE

E existe quem insiste em dizer que, ter percorrido muitos anos de vida, transforma o ser humano em figura patética, enrugada, frágil, insegura, descartável, solitária...

Ora ,a esse que cantou o “parabéns a você” na casa dos enta e desabou deixando ruírem seus sonhos, esperanças, desejos, cheio de medos, sem forças para olhar pra traz, e relembrar com alegria a história mal ou bem vivida, fazendo do futuro um monstro que aterroriza, dedicaremos vaias pela péssima interpretação da vida na mais bela idade..

Entretanto, àquele que serviu a primeira fatia do bolo para si próprio, cumprimentando –se por ter sobrevivido a uma dezena de anos, bons ou maus, não importando-se com as pernas mais fracas, a voz um tanto rouca, os olhos,embaçados, as rugas desenhadas no rosto,a alma apertada pelas saudades, enfrentado o espelho com dignidade encantado pela imagem que lapidou no transcorrer de uma vida inteira, seguem os aplausos estrondosos pela grande vitória conquistada como o senhor do tempo e da história.

Dias destes, após muita excitação em enfrentar o óbvio, isto é - a vida a ser vivida- resolvi caminhar pelo calçadão do parque linear que, apesar de moderno, colorido, alegre, não conseguiu rsepultar as imagens do passado .

Foi quando me dei conta de que a velha ponte pênsil balançando sobre o Camanducaia, continuava a mesma.

Conservada sim, mas repleta de histórias de tempos que não voltam mais.

Lembrei meu primeiro passeio sobre ela. Mãos agarradas nas mãos fortes do meu pai, senti um medo terrível e uma sensação enorme de vazio, olhando o rio lá em baixo descer calmamente , desafiando meus temores.

Eu era tão pequena... e era tudo tão grande......

Lembro-me de apertar com força as mãos do meu pai e ouvi-lo explicando mansa , suave e orgulhosamente a importância daquela ponte e o quanto era segura.

Claro.. eu pouco entendia, mas sentia que era uma grande vitória poder contar com ela para atravessarmos de um a outro lado da cidade.

Então... imponente e encantada, enfeitiçada pela grandiosidade da obra,atravessei a ponte de nariz empinado, como se quisesse dizer:

-“ Viram????’ na minha cidade tem uma ponte que balança e não cai”....

Enquanto relembrava minha fascinante descoberta cheia de aventura naquele dia misturado a tantas outras lembranças. parei no meio da ponte encaixando-me no presente, de maneira natural, assim como as peças de um jogo dispostas obedientes num tabuleiro, sem pensar na assustadora casa dos “enta”, observando minha imagem nas águas do Camanducaia,

refletida nos tons marrons das águas barrentas, sufocadas pelas transformações do tempo, quando um dia chove, outro venta, faz muito frio... muito calor e ninguem mais está preparado para tamanha instabilidade da natureza . Permaneci assim por alguns minutos que foram o bastante

para permitirem um giro pelo passado, começando na fase criança encantada com o primeiro passeio pela ponte pênsil.Jovem , subindo e descendo a rua 13, graciosa e discreta, caminhando para escola, Colegio das freiras, Coriolano Burgos, etc e nas manhãs ensolaradas de domingo, fazendo “point”no “ Largo da Matriz “ , após a missa das 10, onde o charme era paquerar os jovens da época , cujo fascínio estava na troca de olhares,, num sorriso, numa promessa de amor. Depois, a caminhada à idade adulta, cheia de espectativas, trabalho, romance, casamento,

alcançando o grau sublime de ser mãe e avó

O sol insistia em desenhar figuras na água, espalhando seus raios entre as folhas das árvores.

Paisagem magnífica de hoje, enfeitando as telas de outrora, quando apenas flores comuns, copos de leite, amores perfeitos, antúrios , margaridas., ornamentava canteiros simples de nossa Amparo..

Naquele momento, o tempo havia parado , para que eu pudesse buscar retalhos da minha história de conquistas e perdas irreparáveis ,avivando a memória para tudo que valeu a pena.

Fui feliz???? Demais da conta.tanto que arrastei essa felicidade cheia de garra , de força, sabedoria, para o agora, quando percebi que diante de tantas lembranças seria impossível sentir-me só.

Tantas coisas ainda existem a serem descobertas nessa Amparo de hoje. , coisas que nos encantam ou nos espantam, cantos e recantos a serem explorados, pessoas que precisam, que imploram, outras que se doam ou se omitem...enfim, há tanto a ser feito que a mente e o coração transbordam de emoção diante do privilégio de poder doar-se em prol da luta do dia a dia.

O corpo se enche de forças e se entrega em nome do amor que alimenta a vida.

Escurece!

Os primeiros sinais de noite começam a desenhar figuras no infinito.

Caminho a passos lentos deixando a velha ponte ,com medo de chegar ao fim e a paisagem de hoje , desenhada pelo asfalto salpicado de carros modernos e possantes que deslizam velozes , alucinando com o som de buzinas e o ranger dos pneus, desapareçam com todas essas lembranças

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